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Palavra do Especialista

Francisco Oggi: Pré-moldados  e a industrialização na construção.
 

1 Eng. Francisco Pedro Oggi   Francisco Oggi é considerado um dos profissionais que mais entende de pré-moldados  de concreto no Brasil. Seu primeiro contato com essa tecnologia aconteceu  ainda no período universitário,quando cursava engenharia  na Universidade Mackenzie. Depois, montou escritório de projetos  e trabalhou em algumas empresas, sendo que agora atua como consultor,  na transformação de projetos para pré-moldados  ou adequação dos mesmos para se obter maior eficiência.Filho  de artista plástico e escritor, Oggi sempre teve apreço  especial pela cultura e conhecimento. Por conta disso, viaja freqüentemente  para o exterior, buscando novas informações sobre tudo  o que envolve o segmento construtivo.Alem disso, lê periodicamente  mas de 12 revistas internacionais sobre o assunto e mantém uma  biblioteca riquíssima , versando principalmente sobre concreto  armado e pré-moldados.Nesta entrevista especial que o eng. Oggi  fala um pouco sobre pré-fabricação e compara o estágio do Brasil em relação aos demais países.     

COMO O SR. ANALISA O MOMENTO DO  SETOR DE CONSTRUÇÃO NO BRASIL?
 
As construtoras hoje estão ficando cada vez mais enxutas. Elas querem  administrar sistemas. Não querem ir mais atrás do bloco, pois  preferem a parede pronta. Elas não procuram mais a barra der aço,  porque contam com a armadura já montada. 
 
Essa é uma tendência mundial, porque n exterior a mão-de-obra  custa muito caro.Trata-se de um fenômeno que esta se repetindo aqui,a  mão de obra especializada e eficiente já esta custando muito.  As construtoras esta enxugando, porque estamos num ramo que a solução  de continuidade não é garantida, em virtude da crise econômica.  A construção civil tem esse problema, sobe, desce, então  o caminho a trilhar será o de comprar e administrar pacotes. Trocando  em miúdos é muito melhor se eu tiver alguém que faça  toda estrutura de minha obra e me entregue pronta. Eu trato só com  uma pessoa, não quero saber se o aço não deu, se o concreto  voltou, se o caminhão tombou, se acabou a energia. Para compor o processo  há ‘n’ itens. Dentro da fôrma tem 50 mil tipos de  pregos, sarrafos, pontaletas, assoalhos, escoras e travessas. O concreto do  pilar tem especificação diferente do concreto do restante da  estrutura etc. Por isso, do ponto de vista global, o item mais caro da obra  é a estrutura e tem muitos ainda pensando que são os elevadores  ou as esquadrias.
  

ESSA TENDÊNCIA DE TERCEIRIZAÇÃO  DA OBRA É POSITIVA?
 
É positiva, a medida que dá oportunidade a empreiteiros e pequenas  construtoras de se estruturarem para atender as grandes construtoras e incorporadoras.  Mas, em contrapartida, o gerenciador da obra toda não consegue mais  enxergar o pequeno empreiteiro. Por isso, cada vez mais se está exigindo  dessa cadeia uma formatação, onde qualidade, responsabilidade  e garantia de prazo se estão sendo a tônica do negócio,  abrindo campo para o desenvolvimento e aplicação de sistemas.
 

ISSO NÃO ACABA GERANDO UMA  SITUAÇÃO DE MAIOR DESIGUALDADE ENTRE GRANDES E PEQUENAS OBRAS?
 
È claro que estamos numa frase de transição, mas a tendência  é que esses processos construtivos artesanais desapareçam, porque,  em primeiro lugar,a mão-de-obra para esse trabalho tende a desaparecer.os  novos profissionais estão conquistando espaço e já tem  outra cabeça, porque o caminho natural é a industrialização,  a adoção de sistemas, racionalização e visão  sistemática da obra.O concreto doado em central, por exemplo, ainda  é utilizado por uma parcela pequena, mas só tende a crescer.  Nas grandes construções já é quase uma unanimidade.  Mas, até nas pequenas residências, se for feito um calculo preciso,  vai se chegar a conclusão que o concreto bombeado é economicamente  competitivo, oferecendo maior agilidade e qualidade.
 

POR QUE O USO DO CONCRETO AINDA  É TÃO REDUZIDO NO BRASIL?
 
Inicialmente, porque consumimos muito pouco cimento per capita. A Industria  italiana do cimento, por exemplo, já esta em 41 milhões de toneladas/ano,  para uma população de 45 milhões de habitantes, num pais  em que já esta quase tudo construído.
 

O QUE É PRECISO PARA MUDAR  ESSA SITUAÇÃO? 
 
O que ocorre no Brasil e em outros países do chamado Terceiro Mundo  é que a autoconstrução ainda é fator preponderante  chamado “mercado formiga” do cimento ocupa uma parcela muito grande.Se  conseguimos fazer com que esse consumidor tenha acesso aos produtos industrializados  de cimento, a parcela do mercado “formiga” diminui e o cimento  vai para o concreto dosado em central e para o pré-fabricado. A outra  forma de alavancar o segmento é aumentar a quantidade de construções.Os  pavimentos de concreto tamebm devem evoluir muito nos próximos anos,  pois apresenta inúmeros benefícios. A pré-fabricação  é outro caminho interessante. 
 
Apenas para se ter uma idéia , na Itália existem mais de quatro  mil empresas entre pré-fabricadores e produtores de artefato de cimento  e aqui não temos mais do que dois mil.
 

MAS ESTAMOS EVOLUINDO EM ALGUNS  SETORES, COMO O CONCRETO DE ALTO DESENPENHO?
 
Estamos evoluindo porque são tecnologias que estão muito mais  disponíveis do que antes. A partir do Collor ocorreu essa abertura  de mercado e de horizontes, fez com que a gente passasse a enxergar, permitiu  que as pessoas começassem a viajar, a empresas de fora viessem para  cá e trouxessem tecnologia. Então, em pouquíssimo tempo,  até 2010 , não vai haver diferença em termos de tecnologia  entre o que se faz aqui e no exterior, e seguramente com o potencial que temos,  o superemos em alguma coisa. Concreto auto adensável, por exemplo,  já se faz aqui. Um empecilho ainda é o custo dos aditivos, caros  no mundo inteiro, aqui mais ainda, porque são importados.Mas isso é  natural,antigamente os aditivos superplastificantes eram caríssimos  e hoje já são bastante acessíveis. E também a  questão do custo já é vista de outra forma: o concreto  auto adensável propicia peças mais esbeltas, com garantia de  preenchimento melhor, em peças muito armadas, que os outros concretos  , o que também vai significar economia no custo global.essa evolução  esta ai e não estamos fora dela.Fizemos o primeiro prédio com  concreto de alto desempenho, que é o e-Towers (em São Paulo),  com concreto dosado em central alcançou 125 Mpa de resistência  aos 28 dias. No mundo inteiro isso ainda não foi feito. O único  problema é que aqui nos dependemos da demanda.Nos Estados Unidos, por  exemplo,como eles tem muito capital, as empresas se estruturam para gerar  demanda. Aí está a diferença: enquanto lá se tem  ação, aqui trabalhamos apenas por reação.
 

E EM TERMOS DE PRÉ-MODADOS  E PRÉ-FABRICADOS?
 
Os pré-fabricadores sofrem de um problema grave de capital de giro.eles  tem que pagar a mão-de-obra, o aço, o cimento à vista,  que são fundamentais, e normalmente só recebem pelo produto  final em 45,60,90 dias, pois precisa ser transportado e montado e depois faturado.O  pré-moldado tem um outra característica, geralmente acontece  como uma reação: eu tenho uma obra para fazer e vou faze-la  em pré-moldado, porque o pré-fabricado mais perto esta muito  longe, ou por ser uma alternativa mais econômica que o pré-fabricado  ou as estruturas metálicas. O pré-m0oldado só acontece  se a obra sair , então é uma ferramenta que se encaixa perfeitamente  no nosso esquema de execução de obra.E é bastante interessante  porque eu posso fazer em qualquer lugar, desde que eu tenha concreto, aço  e mão-de-obra disponíveis.Alem disso, os pré-fabricadores  no Brasil, por uma questão de conveniência, impuseram,por um  período que já esta acabando, um padaro rígido que não  existe fora daqui. O que existe nos outros paises é uma quantidade  muito grande de padrões,que certamente vão atender a a inúmeras  necessidades, mas aqui se decidiu por um único padrão. Isso  o arquiteto não quer. Já os pré-moldados não seguem  padrão nenhum, se produz o que é necessário de acordo  com o projeto.
 

E COMO ESTÁ A QUALIDADE DOS  NOSSOS PRÉ-MOLDADOS?
 
Com relação as fôrmas para pré-moldados sem duvida  devera haver muita evolução, as empresas que atuam com fôrmas  metálicas estão investindo em tecnologia, se aprimorando. À  medida que aumenta a demanda pela pré-fabricação, vai  aumentar também a qualidade e a quantidade de empresas fazendo fôrmas  pré-moldadas , porque é um setor reativo que funciona em cadeia.  Porem, como existe também uma tendência de acompanhar o que se  esta fazendo nos outros países, essa necessidade de diversificação  de padrões vai exigir investimentos nessa área.
 

ESTA HAVENDO UMA AMPLIAÇÃO  DAS POSSIBILIDADES DE USO DOS PRÉ-MOLDADOS?
 
Recentemente publicamos matéria sobre uma obra que teve sua participação  em que até os muros eram pré-fabricados...
 
Hoje, tudo pode ser feito em concreto.É um produto que esta disponível  no mercado inteiro e é ecologicamente correto.O que precisamos é  de maior investimento no setor de construção civil.Nos temos  demanda de habitação, infra-estrutura e malha viária  no país inteiro, tudo isso à espera de recursos. 
 
Entretanto, em termos de volume, a participação dos pré-fabricados  de concreto no Brasil ainda é insipiente. Do ponto de vista tecnológico  ficamos um bom tempo parados e agora será necessário um grande  esforço para reverter o quadro. Um dos setores que promoveram excelente  renovação é o das empresas que fabricam painéis  acabados de fachada.
 
Já existe uma quantidade relativamente grande de empresas nessa área,  mas só produzem, por enquanto,o elemento da fachada.Existe uma necessidade  de se apresentar produtos novos para estrutura de galpões, shopping  centers, e até mesmo de edifícios altos , que lá fora  são feitos com pré-moldados e que aqui ou não se faz  ou ocorre de maneira muito tímida.
 

EM SUA OPINIÃO A TECNOLOGIA  DA PRÉ-FABRICAÇÃO JÁ É DE DOMÍNIO  DOS PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA?
 
Definitivamente não. Há a necessidade de um trabalho de conscientização  por parte das entidades que tem o poder para isso, como ABESC, ABCP, ASBEA  (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura),  CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), que tem condições  de promover palestras, cursos de aperfeiçoamento, de conscientização.  
 
Parte importante desse esforço deve ser canalizado para as universidades.  E com isso a cultura, o conhecimento vai aumentando, provocando, conseqüentemente,  evolução no segmento de construção.Porque hoje,  quando você chega numa construtora para falar de pré-moldado,  é como se estivesse falando de extraterrestre...
 
Créditos: Jornal Tecnologia do concreto armado  N. 17

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